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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sade em Sodoma

Algumas pessoas têm o hábito de ir ao Teatro e não se informar sobre o espetáculo que irão assistir. Há quem escolha as peças pelo elenco e até pelo preço! Enfim, isso não dá muito certo. Sempre acho que vale a pena ler a sinopse que sai no jornal ou até em último caso as críticas - embora possa influenciar - para não chegar tão cru ao teatro. O motivo de tanto blábláblá é por conta de SADE EM SODOMA que está em cartaz no Teatro de Arena da Caixa Cultural. Um espetáculo com esse nome já é o suficiente para dar uma noção de que a história é picante. Aliás, só a palavra Sodoma já remete aos textos da Bíblia e a história de "Somodoma e Gomorra". Além disso, Sade é sinônimo de perversão e suas histórias não tem nada a ver com contos de fadas. Definitivamente, Sade não é Walt Disney!


SADE EM SODOMA é uma adaptação teatral do livro homônimo de Flávio Braga que faz uma releitura do romance de Sade "120 dias de Sodoma". Por sinal, este romance de Sade ganhou uma adaptação para o cinema pelas mãos de Pasolini com o clássico "Saló". No teatro muitas adaptações já foram realizadas mundo afora, inclusive no Brasil, pela companhia paulistana "Os Satyros", cujo espetáculo "Os 120 dias de Sodoma" assisti e já escrevi aqui.

Nesta SADE EM SODOMA, o diretor Ivan Sugaharra optou por não mostrar as atrocidades dos 120 dias de orgia, mas somente narrá-las e indicá-las, deixando que o público individualmente faça a sua "viagem".
Segundo o diretor "não é difícil traçar um paralelo entre Sodoma e o consumismo contemporâneo". De fato, o homem sempre está querendo mais, vive numa busca de preenchimento de um vazio que nunca será preenchido. Assim estavam os quatro amigos aristocratas que organizaram a orgia, numa busca infinita de prazer a qualquer custo.

As histórias contendo todo tipo de perversões sexuais, cenas escatológicas, torturas físicas e psicológicas são narradas pela cafetina Madame Duclos e por Mathieu - um "soldado" que fora contratado para sequestrar moças e rapazes virgens que participariam da orgia - vividos por Guta Stresser e Tárik Puccina. Enquanto narram suas histórias picantes, os personagens deliciam-se com um pequeno banquete servido por dois criados, interpretados por Mayara Travassos e Edson Cardoso.
A montagem de SADE EM SODOMA é muito bem realizada, tem um cenário simples, mas sofisticado. Os figurinos são bonitos e a iluminação é bacana. Gostei muito do trabalho da direção que não carregou nas tintas. O texto, por si só, já é carregado demais. Para amenizar um pouco esse clima pesado e "tentar" descontrair, em alguns momentos a platéia é servida pelos criados que oferecem água, vinho, canapés e chocolates. Guta Stresser convence no papel de Madame Duclos e aproveita bem o texto. Assim, ouvimos a Bebel de "A Grande Família" falar coisas inimagináveis, tudo deliciosamente dito. Sílaba por sílaba, mantendo a perversidade que o texto exige. Tárik Puccina segue no mesmo caminho, mas sem tanto brilho. Por fim, os criados servem como apoio para os narradores. Jogam olhares lânguidos para a platéia enquanto servem, como se quizesse seduzi-la e jogá-la na orgia. A surpresa, pelo menos a minha, foi ver o ex-dançarino do É o Tchan atuando. Isso mesmo Edson Cardoso é o rapaz que segurava o Tchan, o Jacaré, e agora tá dando pinta no Teatro. Até que está bem.
Depois de 60 minutos termina a narrativa e a platéia reage de maneira morna. Afinal, ninguém estava ali para ouvir os nomes chulos que damos aos nossos genitais. Ah as platéias e os seus pudores.
SADE EM SODOMA é um espetáculo para iniciados - em todos os sentidos - e fica em cartaz até 30 de maio na Caixa Cultural.

3 comentários:

  1. Muito bom, gosto da Guta, pois a voz dela é muito boa. Imagino o que muita gente deve ter pensado a certa altura do espetáculo, conforme os atos transcorreram, pois os pudores, Jorge, são a pior coisa do mundo. Acabam nos tirando a espontaneidade. Adorei o post!

    Beijos pra ti e ótimo dia!

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  2. Ahahahaha Compadre, adorei quando vc deixou bem claro: Sade não é Walt Disney! É duro desperdiçar uma linha de uma resenha tão boa para catequisar o leitor, mas enfim...

    Aguçou minha curiosidade. Sim, a Guta é uma graça de atriz, muito talentosa e deve ser interessante vê-la nesse papel inusitado. Vamos esperar se a peça vem pra cá tb.

    Amore, deixei um email pra vc sobre o seu recadinho no Babel, mas, resumindo: manda bala, publica tudo! rs

    Beijos com saudades!

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  3. Luciana
    Esta peça deixa muita gente de cabelo em pé. Às vezes a fala choca muito mais do que o ato em si. E por incrível que pareça, neste século XXI, ainda tem muita gente encanada...
    Beijos

    Lê, comadre!
    Voce vai gostar desse espetáculo, é ebem feito e a Guta tá uma graça. Que bom que vc liberou, vou publicar tudo, tim tim por tim tim. rsrsr
    Beijos

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