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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Vicente Celestino - A voz orgulho do Brasil

"O Brasil é um país sem memória" - tenho ouvido esta frase desde que me entendo por gente. E isso já conta mais de 4 décadas. O engraçado é que pouco tem sido feito para que nosso país possa preservar a sua história, sobretudo quando se trata de arte. Ainda restam alguns livros, algumas fotos e só. Quanto material importante já não estragou por conta de má conservação, impedindo o trabalho de pesquisa e preservação da nossa memória musical. Falta de interesse e descaso ou quem sabe "um não pensar no amanhã", conduziram nosso país ao estágio atual. Não há muitos documentos e registros dos nossos artistas. O tempo passa, eles desaparecem e ninguém mais se lembra. Lamentável para uma nova geração não poder conhecer mais profundamente as histórias desses ídolos do passado, que com suas canções embalaram os romances dos seus avós ou bisavós. Por tudo isso é que ficamos muito contentes quando sabemos que um grupo de realizadores - Cia Limite 151 - decide encenar um musical sobre a vida de um dos maiores cantores que este país já conheceu: Vicente Celestino - A voz orgulho do Brasil.

Vicente Celestino (1894 - 1968) é considerado um dos maiores intérpretes da música brasileira. Foram 54 anos de carreira marcados por grandes sucessos, desde a valsa "Flor do Mal" até as inesquecíveis "O Ébrio", "Coração Materno" e "Porta aberta". Além de cantor de música popular, Vicente Celestino também atuou na cena lírica participando, em 1921, das montagens de "Tosca" (Puccini) e "Aída" (Verdi), no Teatro Lírico, e de "Carmen" (Bizet) no Teatro São Pedro. Também atuou no cinema, dirigido por sua mulher Gilda Abreu nos filmes "O Ébrio" (1946) e "Coração Materno" (1951). Celestino permaneceu fiel ao seu estilo e assim manteve a sua popularidade em alta, tendo suas músicas regravadas por nomes como Caetano Veloso e o grupo Os Mutantes.

(O Trio de protagonistas: Alexandre Shumacher - Vicente Celestino, Stella Maria Rodrigues - Gilda Abreu e Pedro Garcia Neto - Guido)

Escrito por Wagner Campos, o espetáculo apresenta ao público os principais momentos da vida do cantor, desde a infância até o dia de sua morte, tudo narrado pelo seu amigo Guido. A narrativa mais parece um bate-papo entre amigos, Guido vai contando passagens da vida de Celestino e as cenas são apresentadas ao público como num flash-back. Tudo isso num clima leve e intimista. Este é um grande acerto da direção de Jacqueline Laurence. O musical conta com cenário de José Dias, composto por poucos objetos, apenas duas mesas e algumas cadeiras e o palco está todo coberto por um carpete vermelho, recortado em três mini palcos e ao fundo, um grande painel que iluminado pela luz de Rogério Wiltgen, ganha cores especiais e dá o clima intimista que o espetáculo exige. Os figurinos de Ney Madeira são muito bonitos, especialmente os femininos, que marcam o estilo de cada época. O musical conta com elenco encabeçado por Alexandre Shumacher no papel título, Stella Maria Rodrigues, Camilla Caputti, Pedro Garcia Netto, Edmundo Lippi, Jacqueline Brandão, Bruno Ganem e André Rebustini. Acompanha o elenco quinteto dirigido pelo autor do espetáculo, Wagner Campos, composto por Mario Feres (piano), Virginia Linden (flauta), Adelson Baigon (contra-baixo), Luís Flávio Alcofra (violão) e Lena Verani (clarinete). Jacqueline Laurence está de parabéns pela forma como conduziu o musical. Os atores coadjuvantes, nos diversos papéis que interpretam, estão bem, mas é certo afirmar que o maior peso está no trio principal, composto por Alexandre, Pedro Netto e Stella Maria. Pedro Netto está muito à vontade como Guido e transmite muito bem a admiração que o personagem sente pelo amigo Vicente. Stella Maria Rodrigues, atriz que já participou de diversos musicais, encontra neste espetáculo o seu personagem de maior destaque e, certamente, o melhor de sua bela carreira. Sua composição de Gilda Abreu é sensível e apaixonada. Também interpreta muito bem D. Nícia, mãe de Gilda e professora de canto de Vicente Celestino. Alexandre Shumacher mostra que é um ator extremamente estudioso e dedicado. Sua atuação está irrepreensível e arrebata a platéia desde o início. Sem sombra de dúvidas, este espetáculo é um divisor de águas na sua carreira e, com certeza, durante muito tempo, sua atuação como Vicente Celestino será lembrada.
Vicente Celestino - A voz orgulho do Brasil é um espetáculo com muitas qualidades, acertos e surpresas. Merece e deve ser vista, tanto pelos que ainda guardam alguma lembrança do cantor, quanto pelas novas gerações que ainda não o conhecem. É um musical de altíssimo nível que, espero, seja apresentado em todo o Brasil. Permitam os deuses do teatro que isto aconteça! Assim como Celestino se apresentou em diversas praças deste Brasil, que esta bela homenagem também chegue por onde o cantor passou. E mais uma vez volto a dizer: que seja registrado em DVD para que não se perca este momento maravilhoso do nosso teatro brasileiro.
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Anote:
Onde: Teatro SESC Ginástico
Quando: quinta a domingo às 19hs
Quanto: R$ 20
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No vídeo cena do filme "O Ébrio" de 1946, dirigido por Gilda Abreu, com Vicente Celestino no papel título. A música "O Ébrio" foi composta pelo cantor em 1936.







7 comentários:

  1. Fortu: Sim. Vicente Celestino está muito bem representado por Alexandre Schumacher. Surpreende a todos com sua bela voz e trejeitos do próprio Vicente. Alexandre e Camilla Caputti dão o tom na simpática montagem. Stella é fraca, não faz jus a verdadeira Gilda. O casal que interpreta os pais do artista, péssimos, assim como o restante do elenco. Claro que o narrador, Pedro Netto no papel de Guido, tem seu mérito. Bela presença de palco e voz clara. Músicos ótimos. Os ternos de Vicente medíocres, mas o sobretudo de Gilda bastante elegante. Ao que se propõe o musical dou nota 10. Vela à pena ver! Recomendo.

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  2. Olá Rô
    Fiquei impressionado com a performance do Alexandre Schumacher. Gostei muito do espetáculo e vou bisar.
    Beijos

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  3. Jorge, meu avo era fa de vicente celestino. Cresci ouvindo....nao sabia desse espetaculo. Que interessante. Pena que nao moro no rio....

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  4. Eymard:o espetáculo ficará até o dia 23/05. Vale à pena vir ao Rio para ter esta satisfação.

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  5. Eymard,
    Espero que este espetáculoviaje até Brasília ou quem sabe vc não foge e vem ao Rio?
    Abraço

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  6. Pois é, Jorge, a questão da preservação da memória no Brasil é um tema que precisava de um debate coletivo, já foram cometidos diversos absurdos e o que é pior eles continuam acontecendo. Por tudo isso, além de parabenizar a companhia pelo excelente espetáculo, devemos também ressaltar o valor inestimável para a memória cultural e também emocional daqueles que guardam boas lembranças do artista.
    Achei o elenco todo ótimo, principalmente considerando que o espetáculo é estruturado para dar destaque ao personagem Vicente Celestino, e por ser carismático tanto quanto o artista, o personagem ganha mais relevo o que é natural! O trabalho ficou incrível, merecedor de destaque! beijoss

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  7. Meg
    Acho que o Brasil ainda via levar um bom tempo para apredner a lição. Mas é sempre bom quando temos oportunidade de ver belos trabalhos que resgatam um pouco da nossa memória.
    Sabia que vc iria gostar do espetáculo. Foi um prazer ter vc ao meu lado!
    Beijos

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