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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sobre Normas e Sondras

Post escrito pelo amigo José Eymard, que vocês conheceram no último post. Esta é uma participação que deixa o blog muito envaidecido!

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Prometi ao amigo Jorge Fortunato que faria um relato em primeira mão da Ópera NORMA com a Soprano Sondra Radvanovisky, que está em cartaz no Metropolitan Opera de Nova Iorque.
Jorge e eu compartilhamos a admiração por esta grande soprano. Eu já a havia assistido em Il TROVATORE e, posteriormente, em TOSCA. Jorge, além de assisti-la em Tosca, guarda recordação de uma foto autografada (veja aqui).
Acalentei assistir uma apresentação de Norma, nunca tendo coincidido. Norma é uma Ópera em dois atos, de Vincenzo Bellini, com libreto de Felice Romani. Sua estreia ocorreu no La Scalla de Milão, em Dezembro de 1891.
Trata-se de Ópera em estilo bel canto, ou seja, com ênfase nas qualidades vocais e no virtuosismo. Por isso uma Ópera que exige muito, especialmente da soprano no papel principal. Grandes nomes resgataram, para além do virtuosismo, um estilo dramático, conectando voz e interpretação. Callas é a maior referência. Depois dela Joan Sutherland, e mais recentemente Gruberova.
Quando li que Sondra estrearia Norma no Metropolitan, imediatamente procurei conciliar minha agenda.
Sondra tem uma emissão vocal impressionante. Ao vivo tem presença de palco impar. Assisti-la no papel de Norma seria um grande prazer e eu estava com enorme expectativa.
Um pouco sobre Sondra. Nascida em 1969 é americana. Estudou arte dramática na Califórnia. Sua principal escola foi mesmo o Metropolitan Opera em NY. Especialista nas personagens de Verdi.
Photo by Marty Sohl © 2013 The Metropolitan Opera
Um pouco sobre a Ópera Norma: os principais personagens em cena são Pollione (romano); Adalgisa (aspirante a sacerdotisa); Norma (sacerdotisa Druída) e Oroveso (pai de Norma).
A história pode ser resumida no confronto de valores: amor, traição, desejos conflitantes, entrega e retidão.
Um pouco sobre a montagem: observo que o Metropolitan mantém produções impecáveis. Minimalistas. Lembram quadros de Matisse. Os figurinos também são caprichados e a luz mantém a dramaticidade e o clima da peça. A orquestra, dessa vez conduzida pelo maestro italiano Ricardo Frizza, é um espetáculo a parte.
Foram três distintos cenários, iniciando com a enorme lua e o palco levemente inclinado. A principal e mais conhecida ária, Casta Diva, vem logo no primeiro Ato. Mas os duetos de Norma e Adalgisa são igualmente famosos e exuberantes.
Sondra rouba todas as cenas. Encanta a platéia que desaba em aplausos. Domina integralmente a cena. Sondra é Norma. Inteiramente Norma.
Sua voz tem um volume incrível. Mas não é só a voz. Ela tem expressão. Interpreta Norma e não apenas faz coreografias vocais. É Norma.  Adalgisa, nesse caso a Mezzo-soprano Kate Aldrich, faz o possível. O que em Sondra soa natural, parece extremamente difícil para a intérprete de Adalgisa. Ainda assim uma boa Mezzo-soprano. Aleksandrs Antonenko, o tenor, é convincente como Pollione.
A peça, com duração de aproximadamente 3 horas, em nenhum momento chega a ser cansativa. A sequência dramática prende o ouvinte. Norma, ao saber da traição de Pollione, decide se matar. Para evitar que seus filhos sejam levados para Roma, planeja matá-los enquanto dormem. A cena é perfeita. E a tortura mental entre o certo e o errado se reproduz na voz e na música.
Outra sequência perfeita entre dramaticidade, voz e musica são os diálogos entre Norma e Adalgisa.
Photo by Marty Sohl © 2013 The Metropolitan Opera
A cena final, novamente, reconecta o sentido da Ópera. A mãe zelosa só decide o seu destino após ter certeza de que seus filhos serão cuidados por seu pai (Oroveso) que, inicialmente, resiste, mas cede aos apelos da filha.
Certo de que Norma entregaria e sacrificaria Adalgisa, Pollione se entrega para salvá-la.
O povo está confuso. Ora Norma conclama a paz. Ora chama a guerra. Por fim, após tomar a sua mais dramática decisão, pede novamente pela paz entregando-se a si própria (e, portanto, poupando Adalgisa) e Pollione para o sacrifício final.
A cena é dramaticamente perfeita no enlace da luz, cenografia, vozes, música.
Penso que Norma também fala de ética. Mas isso é outra história.
O MetOpera tem um programa de divulgação da Opera, transmitindo-a para cinema e imortalizando em gravação DVD. Aguardo com ansiedade poder rever esse espetáculo e espero que vocês também possam assistir.

2 comentários:

  1. Magnífica análise do seu amigo, Jorge. Estão ambos de parabéns: ele por esse belíssimo texto, você por tê-lo trazido até nós...
    Como gostava de ter estado nessa plateia.
    Um abraço para os dois
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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  2. Ruthia,
    O Eymard é um grande admirador dessa arte. Quando recebi o texto, nem pensei duas vezes e pedi para publicar.
    Abraços

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